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Histórisas da tzé - tzé
HISTÓRIAS DA TZÉ-TZÉ
- ANGOLA – TEMPOS CUSPILHADOS… Tempos de quitanda e tipóia - 28.08.2008
Esta estória foi escrita há dez anos atrás; precisamente a 07.07.2008
Por: T´Chingange
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Voltei lá hoje pela terceira vez, dez anos depois; Petisca de Celas é seu nome! Tomei um café e uma água das pedras enquanto esperava pela dose e meia de carne de porco à alentejana. Perguntei ao dono se tinha lido isto porque sua filha de nome Joana me tinha dado resposta alegre pelo facto. Ainda não sei seu nome nem tampouco o de sua esposa que cozinha gostoso. Passo a transcrever a mensagem de Joana: De joana a 6 de Abril de 2010 às 13:02 … boa tarde!... Foi com muito agrado e ao mesmo tempo muito comovente ler este seu excerto, uma vez que sou filha dos donos da Petisca de Celas! É bom saber que se consegue marcar de alguma forma os visitantes desta bela terra que é Coimbra!
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Naquele dia de 2008 o tempo estava húmido em Coimbra; costuma ser assim, imprevisível. Busquei coisa não encontrada e, perdido o autocarro sete com destino ao Tovim decidi-me já cansado a subir a ladeira; após a avenida da Republica, passo a Cruz de Celas e mais acima, não muito longe de Santo António dos Olivais o cheiro da Petisca de Celas tentou-me a entrar. Petisca é uma das muitas casas de meio pasto, meio tasca, aonde se juntam uns quantos resistentes da vida; já velhotes, cruzam conhecimentos na conversa da palavra. Serve de sedativo à vida, vida regada com um carrascão de Cabris que, nem é mau.
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Pedi um pratinho de arroz de sanchas (míscaros) com uma carne que desfiava em gostosura e, sentei-me em frente daquele senhor; por falta de lugar solicitei àquele tal que aparentava ter uns quase setenta anos e, o “faça o favor” veio logo a seguir. Estava desejoso de companhia. Não foi necessário muita conversa para logo me fazer a pergunta se, se tinha vindo de Angola; talvez pela pronúncia ou a forma trópico-cordial da minha abordagem assim começou o inesperado diálogo da qual é objecto de passagem à escrita.
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Este senhor de nome Conceição Muralha fala-me com paixão dos tempos em que no Lobito e, sendo despachante levava uma vida restingada naquela falsa ilha de que tanto se recordava e… já da qual o seu avô cronista de tempos idos falava. Eram tempos de tipóia, disse ele! Lá por 1924 em terras de Benguela de onde era natural, o seu avô teve de ir em tipóia de Quipupa até Dombe Grande. Na companhia de João Lara e, numa extensão de sete léguas tiveram de atravessar o rio Caporolo aos ombros daqueles fortes mundombes; mundombes diz em esclarecimento, eram os indígenas naturais do Dombe.
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E continuou recordando feitos! Feitos dele próprio, mas mais de seu avô que em missão oficial tinha ido a Angola no navio Pátria; recolher informações das várias actividades. Um repórter da escrita, acentua! - Quem foi o seu avô? Pergunto eu curioso a fim de recolher mais dados sobre este tema. A isto respondeu:- Pedro Muralha!... E, se quiser, uma vez que o vejo tão interessado, posso ceder-lhe o livro que editou há setenta e oito anos. Deixe ver?! Isso mesmo, em 1935 nasci eu em Benguela, tinha o meu pai uns vinte anos mas, não importa para o caso.
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Fiquei curioso! Na normal ocorrência, um desvio na rota e eis que deparo com este inesperado encontro. A completar o senhor Conceição emprestou-me o dito livro, cópia que ele prezava em que todos tivessem conhecimento. Ainda não li todas aquelas crónicas mas, alcançada a página 149 não resisto a transcrever alguns trechos desta leitura que descreve na margem do Cuanza as ambiências duma Quitanda (mercado), os jacarés e a tsé-tsé.
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“A manha aparecera fresca nas margens do Cuanza naquele treze de Outubro…, muitas pretas, conduzindo à cabeça ou às costas enormes quitandas, cheias de várias mercadorias indígenas junto da sede do Bom Jesus (roça). Isto é no rio Cuanza, não muito longe do Dondo e, também perto de Muxima. Às oito horas daquele Domingo, a quitanda estava completa e no seu maior auge. Apesar do barulho que os indígenas faziam, falando todos ao mesmo tempo na língua bunda, apesar do cheiro nauseabundo, devido à aglomeração de negros catinguentos e às mercadorias ali expostas aos raios enérgicos deste sol de África…
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Ali estavam expostos tabaco em rolos como torcidos, grãos de dendém, fuba, mandioca, azeite de palma, massambala, peixe seco e toda essa enorme diversidade de géneros indígenas, alimentação dos pretos e que à vista dos europeus causam tão desagradável impressão… Vemos pretas, todas cobertas de panos; é um pano geralmente chita, que é apertado pelos seios, enquanto outro pano assenta sobre os ombros, cobrindo-lhe todo o corpo.
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Na cabeça turbante branco! Outras, apresentam-se com o peito e os braços a descoberto. São as que pretendem mostrar as suas tatuagens, algumas dolorosamente feitas… sobre esses traços pinceladas mais claras feitas com fuba e cremes que com óleo de palma. Outras aparecem com o cabelo como se fosse lã churra, a cair-lhe em canudos para a testa e para a nuca. São as quiçamas (creio serem missangas). Fazem esses efeitos selvagens, deitando na carapinha óleo e casca moída de uma árvore.
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Falta um detalhe, é o de que todas as pretas fumam! Usam uns cachimbos com uma grossa boquilha; tiram meia dúzia de fumaças e fazem passar o cachimbo de mão em mão para que todas fumem. Outras fumam cigarros, mas metem a parte acesa na boca”. Lida esta passagem que não comento por os tempos serem idos, passo a outra página; a travessia do rio para o lado da quiçama, sítio de muitas pacaças, elefantes, hipopótamos e sobretudo jacarés.
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“Depois do matabicho metemo-nos num dongo (canoa) e navegamos. É encantadora uma viagem pelo Cuanza, sempre marginando por um verde capim… E, lá está um senhor jacaré… Os indígenas não deixam de ir banhar-se ao rio por causa dos jacarés, porque estão convencidos de que só é comido pelo anfíbio quem tem feitiço.
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E todos aqueles que têem consciências de não terem feito mal algum, que mereça as iras do jacaré, entram pelo rio sem medo, porque o bicho não lhes tocam. E é assim… depois de comidos, ainda ficam desacreditados, porque todos outros indígenas ficam com a impressão de que a vítima fora muito bem castigada.” … Mais à frente e acerca da tzé-tzé… “O desgraçado que tiver a infelicidade de ser mordido por um vehículo desses que esteja infectado tem que ter sérias apreensões.”…Crónicas de outros tempos, do tempo dos kaprandanda! Ambaquistas!
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Nota: Tzé-tzé (tsé-tsé) – mosca portadora da doença do sono; Kaprandanda – tempos antigos, quando do uso de arcabuzes; Ambaquistas - naturais da Ambaca, pioneiros cafuzes dados ao trambique.
O Soba T´chingange - Crónica escrita a 07.07.2008
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