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Já ninguém acredita na salvação das pessoas
Já ninguém acredita na salvação das pessoas



FOTO AMER ALMOHIBANY/AFP/GETTY IMAGES

Crianças doentes ou desnutridas, sem medicamentos e nenhum tratamento, internadas em hospitais onde não há recursos suficientes, humanos e materiais, para tratar essas crianças e os pais dessas crianças ou outras pessoas que procuram diariamente ali tratamento. Alimentos escassos ou vendidos a preços exorbitantes, impossíveis, no mercado negro. Retrato de uma catástrofe e de um regime que usa e mata a população para ganhar vantagem sobre a oposição. É preciso não esquecer este país. Síria

Por : Helena Bento
expresso.sapo.pt

Ao fim de uma série de mensagens trocadas pelo Whatsapp, perguntamos-lhe como é que está a correr o dia de trabalho, se está tudo bem e tudo calmo ou se, pelo contrário, aconteceu mais alguma tragédia. Assim que fazemos a pergunta, apercebemo-nos do quão despropositada ela é. Claro que não está tudo calmo - como poderia estar com ataques aéreos quase diários? - e claro que não está tudo bem.

A região do leste de Ghouta, nos arredores de Damasco, a partir de onde nos fala Orabi Fayez, médico especialista em reabilitação, vive uma situação de “catástrofe total”, anunciaram recentemente as Nações Unidas. Uma situação que não é de agora, mas que se agravou, e muito, desde abril, data em que o regime do Presidente sírio Bashar al-Assad, que tem as suas forças a cercar a cidade ocupada pela oposição desde 2013, lançou uma ofensiva em bairros vizinhos (Qaboun e Barzeh), cortando o acesso ou abatendo os túneis usados até ali pelos rebeldes e comerciantes para transportar comida e medicamentos e outros bens para a zona cercada. Além de impedir que as cerca de 400 mil pessoas que vivem no enclave tenham acesso a bens essenciais, o regime tem também bombardeado uma região que se comprometera em acordo de cessar-fogo a não bombardear, como forma de obrigar a oposição a desistir e a render-se, estratégia usada noutras cidades sírias ao longo dos seis anos de guerra no país (Alepo e Homs são os exemplos mais paradigmáticos) e considerada pela Amnistia Internacional “um crime de guerra”.

FOTO AMER ALMOHIBANY/AFP/GETTY IMAGES

“Só hoje morreram 16 pessoas. Oito crianças, três delas da mesma família, duas mulheres e seis homens. Foram atingidas por mísseis. Há dezenas de feridos e pelo menos três deles tiveram já de amputar membros”, diz-nos então Orabi Fayez, que trabalhava para a Syrian American Medical Society Foundation (SAMS), uma organização não-governamental sediada em Washington D.C.. Nascido em Damasco, capital do país, Fayez mudou-se para o leste de Ghouta em 2013, ano em que o regime sírio mobilizou as suas tropas para as cercanias da região. Queria ajudar a população e ajudar de forma gratuita.

E levou consigo um dos seus três filhos, de 15 anos. “Ele não podia sair da Síria. E eu também não imaginei que a situação ficasse tão má. Achávamos que era só uma questão de tempo até as coisas melhorarem. Nunca achámos que o Exército, o nosso próprio Exército, iria começar a atacar-nos”, diz o médico sírio, para quem o filho é uma preocupação constante. “Estou sempre preocupado com ele. Tenho medo que fique aterrorizado com o barulho das bombas e dos ataques aéreos. Ele entende que estamos a sofrer por causa do silêncio que se instalou à nossa volta. Ainda ontem ele me disse ‘pai, eu quero voltar à escola, apesar dos ataques, sinto falta dos meus amigos e dos meus professores, sinto falta de lá estar’.” Só nas últimas três semanas morreram pelo menos 193 civis, incluindo 44 crianças, em ataques aéreos, segundos números do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização que monitoriza o conflito na Síria a partir de Londres.

À semelhança de outros relatos que têm circulado nos meios de comunicação social, vindos de médicos e enfermeiros e ativistas que se têm empenhado em contar o que se passa - porque sabem que são poucas as pessoas que estão a par do que está a acontecer ou não são em número suficiente para poderem ter esperanças de que algo mude -, também Orabi Fayez nos descreve um cenário trágico. Crianças doentes ou desnutridas, sem medicamentos e nenhum tratamento, internadas em hospitais - os que ainda se mantêm intactos e resistiram aos bombardeamentos - onde não há recursos suficientes, humanos e materiais, para tratar essas crianças e os pais dessas crianças ou outras pessoas que procuram diariamente ali tratamento.

Alimentos escassos ou vendidos a preços exorbitantes, impossíveis, no mercado negro. “Sempre que escrevo uma receita e digo a um doente para tomar os medicamentos antes do pequeno-almoço ou antes do jantar, ele olha para mim e responde-me ‘eu não tomo o pequeno-almoço nem janto, não tenho comida nenhuma em casa. Quando tiver e voltar a comer, eu tomo isso’”, conta Orabi Fayez.

Enquanto nos descreve a situação que se vive na região, o médico sírio lembra-se de um rapaz que chegou esfomeado a casa de um vizinho porque já não comia há dois dias. Ali, pôde finalmente comer e o ar de satisfação que fez perante isso Orabi Fayez nunca irá esquecê-lo. “Tudo isto é inacreditável. Não consigo mesmo perceber como é que as pessoas conseguem viver aqui. Muitas famílias não têm comida. As pessoas tentam ajudar-se umas às outras, mas cada uma delas tem os seus próprios problemas”, diz o médico, para quem o principal problema, além da falta de alimentos e medicamentos, é mesmo a falta de eletricidade, que já dura desde meados de 2012. Como se consegue viver assim é um mistério, mas apenas para nós. “Usamos outras fontes como o vento e o sol. Biocombustíveis e resíduos de animais. Também convertemos plástico em combustível para carros. Algumas pessoas estão a queimar toda a sua mobília para terem lume para cozinhar ou para se aquecerem no inverno”, explica Orabi Fayez.

FOTO ABDULMONAM EASSA/AFP/GETTY IMAGES
Pessoas “vão morrer, mais cedo ou mais tarde”

De um total de 500 pessoas que precisam de ajuda imediata e de ser transportadas para hospitais no exterior da zona cercada, pelo menos 12 já morreram. Um delas foi uma criança de cinco anos que perdeu a vida porque precisava de medicamentos antivirais que nunca viriam a chegar à região do leste de Ghouta. É Mohamad Katoub, médico da SAMS, que nos conta o que aconteceu. “Foi há dois meses. Esse rapaz tinha a idade do meu filho. Os dois brincaram juntos em tempos e partilhavam a pouca comida que nós tínhamos. O pai dele disse que, dali para a frente, iria fazer tudo para evitar que o mesmo acontecesse a outras crianças e eu entendo isso, eu faria o mesmo. Faria o mesmo se perdesse os meus filhos.”

Mohamad Katoub nasceu e trabalhou na região cercada mas foi obrigado a mudar-se para a Turquia quando a situação se tornou demasiado crítica. Não para ele, mas para a sua família. “Não podia ver o meu filho a sofrer, passar por necessidades. Não havia fraldas, por exemplo, e nós usávamos sacos de plástico. Um dia chego a casa e vejo que ele está a sangrar porque fez alergia aos sacos. Não podia continuar ali.” O médico sírio diz que há “milhares de pessoas” no leste de Ghouta a precisar de medicamentos para doenças crónicas e pacientes com cancro, diabetes, doenças cardíacas e outras que também precisam “urgentemente” de medicamentos. Há ainda casos de doentes que continuam à espera de transplantes de rins. Mohamad Katoub sublinha outro problema adicional: falta de cuidados básicos no atendimento a doentes nos hospitais, com os médicos a usarem vezes sucessivas instrumentos que só deveriam ser usados uma vez. “Para os meus colegas médicos que lá trabalham é muito frustrante. Sabem que não podem fazer nada para ajudar as pessoas e que aquelas pessoas que têm diante de si vão, mais cedo ou mais tarde, morrer.”
Mohamad Katoub nasceu no leste de Ghouta mas deixou a região quando a situação se agravou

Mohamad Katoub nasceu no leste de Ghouta mas deixou a região quando a situação se agravou

d.r.
“Os comunicados não salvam vidas”

Mohamad Katoub culpa o regime sírio pelo cerco e pelos ataques aéreos (só entre domingo e segunda-feira morreram pelo menos 27 pessoas, incluindo nove crianças, e dezenas ficaram feridas, em bombardeamentos conduzidos alegadamente pela Rússia, aliada do regime na luta contra o Daesh mas também no combate à oposição, que assumiu o controlo de várias cidades do país ao longo da guerra civil e mantém presença em algumas delas). Mas também culpa a oposição, que continua travar as suas guerras internas, e a ONU, que diz não ter conseguido “impedir que o regime sírio usasse a ajuda humanitária como uma arma política”, mesmo tendo “provas suficientes” das intenções do regime, que ficaram claras nomeadamente com o uso de armas químicas. Foi no leste de Ghouta que se deu o trágico ataque com gás sarin em 2013, que fez mais de 500 mortos, segundo números do Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Já em abril deste ano, morreram mais de 80 pessoas noutro ataque com o mesmo gás na localidade de Khan Sheikhun, no noroeste do país (no total são cerca de 1500 os civis que morreram na Síria vítimas de ataques com armas químicas, segundo um relatório da Syrian American Medical Society Foundation).

Mohamad Katoub também não entende como é que a ONU não consegue pressionar o regime no sentido de enviar mais ajuda humanitária para a região cercada. Em setembro, entrou na região uma caravana do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho com comida e medicamentos. Foi a primeira ajuda em três meses, da qual puderam usufruir apenas 25 mil pessoas (de um total de 400 mil que vivem na região, como aqui já referimos). Já em outubro, foi distribuída mais ajuda noutra área da região. Os bens chegaram a cerca de 40 mil pessoas. O que para Mohamad Katoub continua a ser insuficiente.

“A única coisa que a ONU sabe fazer é divulgar comunicados, mas os comunicados não salvam vidas.” As mesmas reservas mantém-nas em relação à oitava ronda de negociações em Genebra, na Suíça (“já vimos isto acontecer antes e nada mudou”), que deveria ter começado no dia 28 de novembro, não fosse os representantes do regime sírio terem abandonado a cidade antes mesmo do início das negociações, depois de se desentenderem uma vez mais com a oposição. Não disseram quando tencionam voltar, se é que tencionam realmente voltar. Já ninguém acredita em negociações e em acordos de paz impossíveis. Já ninguém acredita na salvação das pessoas no leste de Ghouta pela via do diálogo. Se não for assim, como será então?
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