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A Sonangol foi sequestrada (conclusão) – A ocupação portuguesa e a “granada de fumo”
Vão para aí quatro meses que alertamos para o risco que Angola corre devido à excessiva influência de cidadãos portugueses em áreas estratégicas da vida económica angolana.

A situação que se vive hoje em matéria de exposição de assuntos de Estado é bem pior do que aquela que se vivia quando levantamos esta questão pela primeira vez. A "penetração" portuguesa na Sonangol, facilitada pela forma como Isabel dos Santos escancarou as portas da companhia, cresceu exponencialmente.

Dizíamos na altura que oficiais dos serviços de inteligência no activo e na reserva estavam apreensivos com o volume de informação estratégica que chegava às mãos da inteligência portuguesa.

“De acordo com as nossas fontes, ao contrário do que se possa pensar e do que eles deixam escapar, os serviços secretos portugueses estão entre os que mais informação recolhem em Angola, sobretudo quando estão em causa questões de natureza económica e financeira”.
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Na altura, citamos uma fonte como tendo dito que “a secreta portuguesa é fonte primária de grande parte da informação que outras chancelarias precisam de tirar a limpo, ou que não têm conhecimento. Isto não tem nada a ver com a recolha directa que os agentes do SIED, Serviços de Inteligência do Estado, fazem. Os agentes do SIED tiram partido da tendência quase natural dos angolanos baixarem a guarda quando estão diante de portugueses.

"Somos naturalmente mais abertos diante de portugueses, seja por show-off, seja por distração. Sempre cautelosa, a nossa fonte adverte que embora não seja justo nem prudente concluir que os portugueses assim identificados sejam todos agentes da secreta, pois a maioria não saberá sequer quem é da secreta, a verdade é que esta sabe quem é quem, ou como chegar a alguém que não conhece, mas que tenha acesso à informação."

Com bastante zelo e perseverança, Isabel dos Santos está a fazer hoje na Sonangol exactamente aquilo para o que chamamos a atenção do país há quatro meses. Isto é, a programada e sistemática portugalização da maior empresa pública do país.

No somatório dos novos administradores e consultores, Isabel dos Santos já colocou na Sonangol aproximadamente 70 cidadãos lusos. Oito deles fazem parte do seu inner circle, isto é, estão no centro de decisão. "Se quisermos fazer uma comparação diríamos que Portugal, hoje, tem facilidades de acesso a informação estratégica, que os russos e os cubanos nunca tiveram", observou fonte familiarizada com este assunto.
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Manda a justiça dizer que Isabel dos Santos apenas é "dona parcial do bebê português" da Sonangol. A outra metade pertence, por inteiro, ao Presidente cessante. Ele caucionou ao longo de toda a linha tudo o que a Isabel quis fazer, incluindo a nomeação de dois portugueses no último dia do seu mandato. Ou seja, pai e filha tratam a Sonangol como uma empresa familiar.

Não há como ignorar o spin usado para encobrir tudo isso. O comunicado tornado público esta quarta-feira, 04, seguramente trabalhado em Portugal, faz alusão a Ivan Sá Almeida, quadro angolano recentemente indicado para o CA da Sonangol e de quem todos se devem orgulhar.

A borbulha não está na indicação dele ou por exemplo de Mónica Roque, executiva angolana com créditos firmados em grandes companhias. A borbulha não está também na cor da pele. O caldo entornou quando nas costas do novo Presidente e contra o sentimento nacional, ela resolveu de moto próprio enfiar mais outros portugueses no CA. Por alguma razão o comunicado concebido por gente habilidosa não refere a nacionalidade de Ivan Sá Almeida, que todos sabemos qual é.

Por outro lado, o decreto assinado a 21 de Setembro, apenas é impresso no dia 26, último dia do mandato de José Eduardo dos Santos, e tornado público no dia 28, no mesmo dia em que o país se entrega a cogitações sobre o novo Governo, e um dia depois do novo Presidente mandar promulgar os seus primeiros decretos.

Dá para entender por que razão o decreto ficou a "marinar" durante vários dias, e saiu justamente no dia 28?

Duas hipóteses académicas: por um lado serviu para conter os efeitos da reacção da opinião pública, por outro lado, visou distrair as pessoas.

Este exercício faz lembrar aquele ciclista que, com medo de cair no teste antidoping, troca a urina no balneário e depois apresenta aos fiscais uma amostra olimpicamente aceitável.

Mandar publicar uma vaga de decretos questionáveis poucas horas antes do termo do mandato, por um lado é legal, mas por outro é deselegante, condiciona o novo PR.

Não há hoje a mais leve dúvida de que José Eduardo dos Santos deixa como “herança” a João Lourenço uma “herança” profundamente envenenada. Foi bom o facto do novo PR ter ignorado todas as diligências de Isabel dos Santos, para que fosse ele a empossar o novo CA da Sonangol. Não dá para ignorar também o atraso no empossamento do mesmo.

Isto significa que João Lourenço não é exactamente uma avestruz, ou seja, enterrou a cabeça na areia para não ver nada. Porém, não parece que continua a fingir que não vê nada; deve pelo menos, e urgentemente, instruir o ministro de tutela a proibir a Sonangol de contratar mais estrangeiros.

Sem dar por ela, a entrada de mais um ou dois portugueses no CA, uma das quais, com a mão nos contratos, colide com a mensagem que João Lourenço enviou a Portugal, quando omitiu este na lista de parceiros prioritários. Por outras palavras, foi desautorizado por dois angolanos, a quem ele não deve satisfação nesta matéria.

O decreto do dia 26, que nomeou um novo Conselho de Administração da Sonangol, acabou também por manchar a festa que foi a investidura de um novo presidente. Acabou por ser uma celebração demasiado curta. Isto tem um preço. Isabel tem que perceber que há um novo “xerife na cidade”. E esse xerife já não é o papai, que tudo lhe dá e permite.

João Lourenço está obrigado a fazer aquilo que o juiz conselheiro Rui Ferreira lhe disse: exercer os poderes que a lei lhe confere.

Outrossim, está na hora de alguém ver até que ponto as contratações feitas no mercado português não ferem o decreto-lei nr. 17/09 de 26 de Julho, sobre as regras e procedimentos no recrutamento de pessoal.

“Inspirado" pela forma abusiva como as multinacionais contratavam estrangeiros em detrimento de angolanos, este decreto devia também servir de paradigma para aquilo que se passa na Sonangol. A reconfiguração da Sonangol, em sintonia com os padrões observados nas suas congêneres não pode ferir a sensibilidade dos angolanos. Filha de uma grande político como José Eduardo dos Santos, Isabel deveria perceber isso. Se calhar, ele já não é o que era.

No caso do Diário da República que abre espaço a mais portugueses, movimenta militares e autoriza alguns contratos, o congelamento da publicação do mesmo até dois dias depois do empossamento do novo Presidente significa, no mínimo, lançar uma granada de fumo e tentar passar despercebido.

A nossa consolação é que isso também configura a admissão, por parte de JES e da filha, de que eles estão a perder poder. E ainda bem! A fumaça começa a desaparecer!





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