.
Contacto |  Iniciar |  Impressum |  Google Translator:      
Carta a um irmão angolano Por : Fridolim Kamolakamwe
Carta a um irmão angolano

Caro doutor Savimbi!
Escrevo essa carta na língua dos que esperam. Na esperança de que esperar não seja mais amargo do que morrer. (Redundância propositada.)Se lá do outro lado houver enfim descanso, peço-te, guardes para mim uma cadeira, um pente e um adesivo. Sobretudo, leia esta carta na companhia de Patrice Lumumba, Amílcar Cabral, Nito Alves, N’fulumpinga N’landu Victor, Ricardo de Melo e tantos outros, cujo sangue serviu de combustível a fábrica das revoluções. Ontem, mais um 3 de Angosto. Queria escrever-te nesse dia. Mas faltou-me inspiração. Decidi fazê-lo hoje. Mas tambêm não consegui, doutor. Para que serve escrever cartas, se a realidade fala mais alto? Prefiro calar a voz na dobradiça da minha língua. E deixar que o fêretro do silêncio traga à mesa a brilhantina das razões que deixaram um país tão rico ajoelhado no chão vergonhoso da crise mais nua, que, se pode encontrar no manicômio das utopias:

1- Segundo o jargão da conversa da fífia, eras tu a privar o povo angolano de energia eléctica. Hoje, no entanto, já lá vão 15 anos desde que adormeceste, supostamente em combate. Mas...continuamos sem luz eléctrica. Será que mesmo morto continuas a destruir as barrages e a partir postes de iluminação? Nem mesmo depois de morto dás descanso ao teu próprio povo, doutor Savimbi? Que mal te fizemos, doutor?

2- Caro irmão, Jonas Malheiro Savimbi, os teus bravos homens depuseram as armas. Já não há um só homem da UNITA com uma zagaia se quer na mão. Mas os angolanos continuam morrendo baleados. Será que do alto da tua cova ainda fazes tiros?

3- As estradas continuam esburacadas, as pontes quebradas. Continuas a flagelar a partir do teu caixão?
4- Enquanto os cofres do BNA ficam furados, e a elite fica obesa de dólares, as cadeias estão cheias de gatunos de galinha. Coincidência: não há lá nenhum dos que afundaram o país na sanita da crise estúpida.

5- Irmão, nós crescemos a ouvir que tu eras ladrão. Como é possível morreres e até hoje nem os teus inimigos conseguirem mostrar uma única conta bancária passada em nome de Jonas Malheiro Savimbi ou de um dos teus filhos, dessas contas obesas de zeros à direita? Afinal que forma de roubar era a tua, ilustre doutor? Nem no Wikileaks nem nos Panama Papers o teu nome aparece? Mas que ladrão é esse que não deixa rastos? Ou será que roubavas e depois transferias para as contas do Zedú e seus amigos? Sabias que os filhos todos do teu arqui-rival o José Eduardo dos Santos, e dos seus comparsas, estão podres de dinheiro? Sabias que até o filho dele de apenas 23 anos é PCA de um banco e até há pouco tempo comprou um relógio de 500 mil euros, enquanto Holden Roberto não tem um memorial?

6- Olha, só foi tu morreres e os dólares desapareceram. Levaste-os contigo?

7- A inflacção aumentou, não há farinha de trigo, não há arroz. Ou melhor:- Há arroz. Mas arroz de plástico(...), eles abriram as portas à cooperação chinesa. A cooperação chinesa trouxe muitos benefícios. Um deles é o arroz de plástico(!)
8- A tua proposta era: “ Primeiro o angolano, segundo o angolano, terceiro o angolano(...)”

9- Agora que morreste, a divisa é: Primeiro o estrangeiro, segundo o estrangeiro, terceiro o estrangeiro, em quarto o estrangeiro, depois não se sabe onde ficam os angolanos. Deviam ficar em lado nenhum. Os angolanos são desalojados à revelia, sem condições prévias de realojamento. Suas casas demolidas sem dó nem piedade. Quem se opõe leva bala nos cornos, em plena luz do sol. E não sai nada. Pergunte ao puto Rufino. No entanto, assassino era o Savimbi. Afinal que Savimbi é esse?

10- Os nacionais estão cada vez mais descapitalizados. As garras da repressão estão por todo lado. Quanto mais a elite enriquece aos olhos vistos e os pobres empobrecem, tanto mais aumenta a repressão e o incitamento a adulação, ao culto de personalidade e à exaltação dos que fomentam essa diarréia sócio-política. Foi para isso que voçês pegaram em armas? Para escravizar o povo? Foi para serdes mil vezes piores que o colonialismo?

11- A indústria depauperada em toda sua ossatura. As artes doentes, a cultura menoscabada, a imbecilização generalizada fomentada com patrocínio estatal. A independência afinal é isso?

12- De que serve um hino, uma bandeira, e o nome de República, se a lei é só para ser cumprida pelos pobres, e em pleno século 21, o nosso problema ainda é água(!), uma coisa que até do céu cai de graça?

Desejava escrever-te mais coisas. Mas como a realidade factual é mais eloquente, prefiro dar espaço ao meu silêncio. Ele, é geralmente mais poeta que eu.

Na esperança de que deus e o diabo, nessa coisa de contabilizar os teus pecados, não sejam tão mais cruéis que estes aqui, despeço-me com saudações patrióticas!

DETERMINAÇÃO RESILIÊNCIA DA SILVA.
A.K.A. DR. BOI AMARELO
Deixar um comentário
Ponto-final reserva a si o direito de não publicação de comentários que firam os principios da boa convivência .

Que envolvam calúnia , ofensa , multiplicidade de nomes para o mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal.

Somos um espaço público e colectivo , apelamos ao respeito para bem estar de todos nós.





Ponto-Final.net